Heterofobia Misógina
Escrevo para denunciar um novo comportamento que passei a denominar heterofobia misógina, mas que fiquei em dúvida se não seria misoginia heterofóbica. Seja como for, o título desse post me parece mais sonoro. É que eu sempre tive amigos homossexuais do gênero masculino, mas de uns meses para cá venho convivendo com maior intensidade com um número grande deles e passei a fazer parte de uma espécie de gueto. A identificação com um amigo querido me fez passar por essa fase e constantemente sofrer agressões por parte dos membros do gueto.
Por que chamo de gueto? Eles não fazem amizade com homens heterossexuais, mesmo porque, segundo eles, 70% dos homens são gays assumidos ou enrustidos. Chegam a acreditar que “com qualquer homem, é só eu ajoelhar que consigo chupar!”. Qualquer mesmo, até os 30% de heterossexuais. Gueto porque frequentam sempre os mesmos lugares, onde encontram as mesmas pessoas – e talvez por isso acreditem nas estatísticas que apresentam. Até eu passei a acreditar porque nesses ambientes 99% são gays, 1% fica por conta de alguns trabalhadores da noite. E estou narrando tudo isso a partir da minha vivência nos últimos seis meses. Quase uma imersão antropológica.
Passei a andar com dezenas de gays. E sempre na companhia exclusiva deles. Num primeiro momento alguns perguntaram se eu era transexual porque eu circulava bem entre eles. Quando eu dizia que não, me “elogiavam” dizendo que eu era uma bicha que tinha nascido operada!?. Antes eu achava engraçado. Hoje entendo que isso era uma tentativa de anular minha feminilidade. Só podiam me aceitar ali se tivessem uma imagem de que eu não era uma mulher de verdade. Agora, para minha surpresa, descobri que um deles costumava a se referir a mim como uma amiga “meio sapa”. Talvez meu comportamento por vezes libertino tenha dado a entender que sou lésbica. Ou metade lésbica. Ou um pouco lésbica. Será que assim conseguem se identificar comigo? Precisam pensar que sou meio homossexual para merecer estar entre eles. Sobre ser ou não lésbica, um outro gay, no dia 10 de junho me abordou perguntando se meu amigo (com quem eu parecia ter nascido grudada porque andávamos juntos) estava namorando. Quando eu disse que não ele perguntou o que ele ia fazer no dia dos namorados. Eu disse que nós íamos almoçar juntos num restaurante caro e o fulano emendou com sarcasmo: “ah, desculpa, eu não sabia que ele era lésbico!”. Essa foi a primeira vez que eu me senti profundamente magoada. Afinal, o tal fulano parecia simpático. E me desapontou.
Não conseguem me respeitar como mulher, ou como uma racha. Sim, porque em “tupi-travesti” como costumam dizer, ou em algum outro dialeto do gueto, mulher = racha. Racha… Tenho uma racha no meio das pernas. Sou uma racha. Ou uma racha maldita, uma racha dos infernos, uma rachinha, vai depender de como eu me comportar para merecer a classificação adequada. E falando em racha, a maior prova de misoginia que detectei andando com esse grupo foi a aversão à vagina. Só de pensar na imagem, sentem vontade de vomitar. Parece que alguns de fato vomitam! É uma “coisa” fedida, feia, molhada, babenta. Coisa mesmo. Sexta-feira um deles estava contando que foi beijar uma racha, e ela ofereceu a “coisa” dela para ele chupar. De repente, disse ele, a loucura passou. Sim, porque é preciso estar louco para beijar uma racha. A aversão se estende aos alimentos, o que justifica o horror que sentem por aliche e sardela. Quando presenciei um festival de gays reclamando do mau gosto de pedir pizza de aliche, o meu amigo correu para me explicar que era porque lembrava a xoxota. Fiquei sem entender… por que os restaurantes japoneses com seus sushis e sashimis são lotados de gays?…
Cheguei a ouvir que os homens não deveriam transar com as mulheres porque isso é horrível. Aqueles que não tiveram medo de se contaminar com o gênero feminino e se deixaram chupar por uma racha disseram para mim que aquilo não era normal, era uma boca muito diferente, muito cabelo, uma coisa medonha! Os que nunca passaram por essa experiência degradante ficam orgulhosos, dizendo que quando morrerem vão para o paraíso das bichas porque nunca foram maculados. Talvez eu tenha ouvido outras barbaridades e tenha apagado da memória, ou não tenha levado em consideração por gostar muito desses amigos. Alguns deles me são muito caros e quando estão fora do gueto tem outro comportamento e me fazem muito bem. E por amar muito um deles tomei duas decisões: não frequentar mais os guetos e escrever esse post. Sei que aqui é um blog de dança, mas como sou mulher decidi começar uma campanha contra esse novo fenômeno social.
Faço um apelo para que esses homens que se comportam com tanta finesse publicamente tenham uma postura melhor quando estiverem em seus guetos acompanhados por mulheres. É no mínimo falta de educação ficar falando para uma mulher que ela não passa de uma xoxota ambulante, fedida e nojenta. Grosseria, ódio às mulheres, problema emocional, não importa. Peço também que as mulheres que passam por essa situação abram os olhos de seus amigos gays para essas ofensas baratas, vulgares, aviltantes. A maioria deles não acha que isso é uma postura preconceituosa e degradante e sei que muitos vão me odiar por escrever esse texto. Não me importo. Sempre tive minha bandeira contra a misoginia, não é colorida, nem sei de que cor é, mas é minha e continuarei empunhando-a.
Se homossexuais, negros, indígenas, pessoas com deficiência, sem-terra, sem-teto representam as minorias não há sentido ficar criando, disseminando e mantendo políticas de segregação como as que já oprimiram todas essas chamadas minorias. E me pergunto: qual é a maioria? Se juntarmos todas as minorias teremos a maioria. Como disse meu tio querido, bastante engajado e consciente das mazelas contemporâneas: quando todos se unirem por um mundo melhor, em vez de perderem tempo se afirmando em grupos separados, aí sim teremos uma revolução!!

